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"Ninguém meu amor" de Sebastião Alba

Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos

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"Witchcraft by a picture" by John Donne


I fix mine eye on thine, and there
Pity my picture burning in thine eye ;
My picture drown'd in a transparent tear,
When I look lower I espy ;
Hadst thou the wicked skill
By pictures made and marr'd, to kill,
How many ways mightst thou perform thy will?

But now I've drunk thy sweet salt tears,
And though thou pour more, I'll depart ;
My picture vanished, vanish all fears
That I can be endamaged by that art ;
Though thou retain of me
One picture more, yet that will be,
Being in thine own heart, from all malice free.

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"Rima [13, VII]" de Gustavo Adolfo Becquer

Del salón en el ángulo oscuro,
de su dueña tal vez olvidada,
silenciosa y cubierta de polvo,
veíase el arpa.

¡Cuánta nota dormía en sus cuerdas,
como el pájaro duerme en las ramas,
esperando la mano de nieve
que sabe arrancarlas!

¡Ay!, pensé: ¡cuántas veces el genio
así duerme en el fondo del alma
y una voz como Lázaro espera
que le diga: "Levántate y anda"

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#1 de João Silveira

o corpo permanece
ângulo imóvel
movendo subterrâneos lentos
sob a fala
ou o som da fala
já não atinge

o corpo

em ângulo
permanece fechado
ou insistentemente rasgado
num voo de pássaro
rápido clarão

longe de onde quer que seja
onde.

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I Am 25, Gregory Corso

With a love a madness for Shelley
Chatterton Rimbaud
and the needy-yap of my youth
has gone from ear to ear:
I HATE OLD POETMEN!
Especially old poetmen who retract
who consult other old poetmen
who speak their youth in whispers,
saying:--I did those then
but that was then
that was then--
O I would quiet old men
say to them:--I am your friend
what you once were, thru me
you'll be again--
Then at night in the confidence of their homes
rip out their apology-tongues
and steal their poems.

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Tu estás aqui, Ruy Belo

Estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou
Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem
o que sei o
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou
outra coisa
esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior
a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço
bem entendido o que faço com este braço
Estás aqui comigo e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa
e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho
e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer
Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado
passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas paredes
esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa
essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol
Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso
diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome
este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro
nome embora no mesmo nome este nome
de terra de dor de paredes este nome doméstico
Afinal fui isto nada mais do que isto
as outras coisas que fiz fi-Ias para não ser isto ou dissimular isto
a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram outro nome
que não merda
e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das
outras coisas
Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto
pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa
uma coisa para além disto que não isto
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como
a palavra paz
Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui

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Ainda não li Ruy Belo mas quando tiver oportunidade vou faze-lo. Obrigado pelo poema.

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A Assírio e Alvim editou há uns tempos a Poesia Completa dele em três volumes. É uma edição muito boa. Fica a dica.

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"Uma alegria dolorosa" de Joao Camilo

De que nos serve, o sábado à noite, quando a solidão dos abandonados vem ter a mesa dos cafés, termos sido aquele a quem se disseram palavras de amor, terem-nos tocado e olhado, esperando por nós, enquanto ao longe os automóveis passavam, as pessoas apressadas continuavam a procurar febris a felicidade? Rompem-se as cordas, soam nas ruas tristes da memória os sinos da miséria e da escuridão, e se chove a melancolia que nos oprime já não se dilui nessa água suave. A rapariga que podiamos ter amado, a última, contempla as folhas verdes das árvores, sorri, e imagina sentada ao nosso lado, uma alegria dolorosa, sem pensar em nós, distraída da densidade baça do nosso olhar. E à uma da manhã, quando o cansaco vem, e no espelho da casa de banho de um bar o rosto se nos revela atormentado, os poros gordurosos, então, dirigimo-nos devagar para a saída, dizemos boa-noite, e é só nossa essa morte secreta, esse abandono.

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excerto de Há cidades cor de pérola, Herberto Helder

Há cidades esquecidas pelas semanas fora.
Emoções onde vivo sem orelhas
nem dedos. Onde consumo
uma amizade bárbara. Um amor
levitante. Zona
que se refere aos meus dons desconhecidos.
Há fervorosas e leves cidades sob os arcos
pensadores. Para que algumas mulheres
sejam cândidas. Para que alguém
bata em mim no alto da noite e me diga
o terror de semanas desaparecidas.
Eu durmo no ar dessas cidades femininas
cujos espinhos e sangues me inspiram
o fundo da vida.
Nelas queimo o mês que me pertence.
o minha loucura, escada
sobre escada.

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"Alone" by Edgar Allan Poe

From childhood`s hour I have not been
As others were - I have not seen
As others saw - I could not bring
My passions from a common spring.
From the same source I have not taken
My sorrow; I could not awaken
My heart to joy at the same tone;
And all I lov`d, I lov`d alone.
Then - in my childhood - in the dawn
Of a most stormy life - was drawn
From ev`ry depth of good and ill
The mystery which binds me still:
From the torrent, or the fountain,
From the red cliff of the mountain,
From the sun that `round me roll`d
In it`s autumn tint of gold -
From the lightning in the sky
As it pass`d me flying by -
From the thunder and the storm,
And the cloud that took the form
(When the rest of Heavens was blue)
Of a demon in my view.

-------------------------------------------------
E. A. Poe sang by Arcturus

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"Quarto Crescente" de Ana Luísa Amaral

Porque vejamos: uma lua destas
já nem lua é. A lua quer-se grande,
leitosa, apontável às crianças:
olha o homem da lua, os olhos, a

vassoura. Mas uma lua destas,
desfazendo-se em sombras, um ar
de quem passou o dia em claro
já nem lua é. Que não exija então

o impossível, que não se finja
a sério a pedir versos e algum olhar:
o poeta não usa telescópio,
nem se vai acordar uma criança
por gomos de luar.

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